Coordenação entre mente e corpo
Alexandre C. Gomes

O corpo tem local definido no espaço e é controlado através dos cinco sentidos (visão, audição, olfato, paladar e tato).  Através desses sentidos o cérebro recebe informações do meio externo, processa essas informações e responde através de uma ação motora e ou controle dos órgãos internos.

A mente não tem local definido. Mesmo quando o corpo está parado, o pensamento pode oscilar: mudar de lugar e alternar entre passado, presente e futuro. Quando estamos em movimento, pode ser perigoso não ter a mente presente. Quando a mente está agitada, fica difícil ao corpo responder de forma adequada e eficaz.

A saúde da mente e do corpo depende do fluxo entre percepção e resposta. No Shin Shin Toitsu Aikido, podemos chamar isso de fluxo de KI.

Tohei Sensei organizou quatro princípios que nos ajudam a coordenar mente e corpo, ou seja, acalmar a mente, possibilitando desta forma a unificação com o corpo na mesma ação. Através desses princípios, podemos ficar mais presentes em tudo que fazemos e desempenhar ao máximo nossas habilidades em todas as circunstâncias.

Quatro princípios para coordenar mente e corpo:

    • Concentrar no ponto 1.
    • Relaxar completamente.
    • Manter o peso em baixo.
    • Expandir o Ki.

SOKU SHIN NO GYO (MISOGI) 
Suzuki Sensei

“Soku Shin No Gyo” (treino da respiração e da mente), também conhecido como “Misogi”, é uma das mais importantes disciplinas paralelas à prática do Aikido. Seu propósito é unificar mente e corpo no meio do caos. Seus elementos essenciais são sentar seiza, cantar, tocar o suzu (sino) e controlar a respiração. No momento em que se faz Soku Shin Gyo, o som das vozes e o som dos sinos devem ser um só. Para fazer isto de forma apropriada, o praticante deve dar cem por cento de si mesmo em cada som, em cada toque de sino. Nunca tente se poupar no Misogi, para economizar energia para mais tarde. Dê tudo de si a cada momento e você descobrirá que suas reservas são muito mais profundas do que você imaginava. Ao fazer Soku Shin No Gyo regularmente, o praticante desenvolverá um poderoso kokyu (poder de Ki, gerado pela respiração emanada do Ponto Um, no baixo abdome), porque conseguiu ultrapassar os limites que presumia ter.

O Aikido e o esporte

Aikido não é um esporte no sentido de que nós, ocidentais, entendemos este termo, mesmo se alguns objetivos que almejamos ao  praticar qualquer esporte podem ser alcançados pelo Aikido.

Os exercícios preparatórios que constituem a parte funcional no ensino das artes marciais não deve ser confundido com treinamento dos esportistas ou de investigação com alguma potência física.

Estes exercícios preparatórios, por mais essenciais que sejam, não são o objetivo de um treinamento especial. Cada uma das qualidades do corpo - resistência, força, flexibilidade, velocidade e até mesmo a beleza – que são interessantes para se desenvolver, fortalecer, ou adquirir, não representa um fim em si mesmo.

A potencial aquisição de um potencial físico, e todas as qualidades que o acompanham, são um primeiro passo para a eficiência muscular, certamente, mas também permite ao praticante de aproveitar melhor a arte marcial que ele escolheu praticar.

Em uma palavra, toda essa preparação abre o caminho.

É lamentável que os professores de artes marciais têm que dedicar muito do seu ensino a esta cultura física, como uma condição para superar as deficiências de alunos provocadas pela vida fácil, pelo conforto, e talvez por um desmazelo com o corpo, dos quais dificilmente nos livramos e que aumentam com o tempo.

A iniciação aos exercícios mais específicos requer uma boa condição física. Não há, na ótica das artes marciais, pleno desenvolvimento do indivíduo, sem um corpo sólido. A aquisição de uma mente saudável através da prática de esportes para facilitar a integração do homem na sociedade, se é louvável e merece ser buscada, nem sempre é conseguida, temos que reconhecer.

Os esportes de equipe são muito mais frequentemente ligados a considerações de prestígio e pouco se importam com o equilíbrio psico-fisiológico do indivíduo. O espírito coletivo que os praticantes desenvolvem é muitas vezes limitado à própria equipe, e o entendimento entre os seres humanos que reivindicam não ulltrapassa as fronteiras deste pequeno grupo.

Além disso, o esporte está quase sempre ligado à noção de competição. O ideal das artes marciais não se adequa bem nesse conceito, pois ele exalta as possibilidades humanas em uma área restrita e em um tempo muito limitado, tendo a competição nos esportes risco mais contraproducente que benéfico.

Em vez de dar ao indivíduo a possibilidade de desfrutar por muito de tempo todas as suas capacidades e de permitir-lhe realizar-se plenamente, a competição rapidamente consome todas as suas reservas.

Além disso, é questionável supor se as exigências que condicionam a preparação para uma competição de alta qualidade não comprometem mais o equilíbrio do atleta do que o ajuda a adquiri-lo.

O culto da "campionite” destorce o ensino das artes marciais pelo desvio do seu principal objetivo que é o caminho da pesquisa para o desenvolvimento. Ele dá ao Judô e ao Karatê e a outras artes marciais, mesmo que ele considere a competição como uma aplicação necessária, uma falsa imagem que não promove nem favorece a expansão dessas artes, ao contrário limita-a a um período de vida constantemente reduzido. De ano em ano os campeões "morrem" mais jovens.

A competição não existe no Aikido, e por esta razão ele não pode ir para o mau caminho. Ele não conhece tampouco que tipo de situação o atleta está apenas motivado pelo desejo feroz de bater seu rival, de não perder, uma situação cada vez mais frequente, se consideramos os relatórios esportivos. Ao se deixar ir em busca da vitória "a qualquer preço", as artes marciais estão perdendo a sua qualidade de esportes nobres e educativos. Encontros onde a força pura, não inteligente, e a técnica levada e exigida ao extremo andam juntas (cristalizadas no "especial"), podem denegrir um pouco sua imagem de resultado.

Tirado de “AIKIDO, un art martial, une autre manière d´être” de André Protin

Traduzido por Maria Imaculada de Araujo Walla